... coração, teu mal constante - dói sozinho
e não se rende.
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Cortas o ar com a tesoura: - Bom dia ... ou talvez digas meu nome.
... Não irei. Escreverei, velho amigo:
- Se me desviasse perdeir a caçada aos Mários, dois cristãos que me ajudaram a adoçar a boca do senhorio.
Vou passando assim, de boca, menos mal... menos mal...
Notícias de Garricha: na mesma. Foi até o hospital falando do bastidor. Deve Ter esqucido outras coisas, mas o bastidor era o principal. Voce sabe, é sua mania....
Para mim, a cadeira de palhinha sem Garricha, é ela sem bastidor. voce lembra daqueles metros de linho da filha de seu Antero? Qualquer italiana rica poderia vesti-los sem vexame.
Agora é a doença que a está picando. Fez uma renda no pulmão esquerdo. Dizem que vai sarar, mas qual, anda tão morta que isso de poder bordar é quase um sonho...
Quanto a mim, meu amigo, vou passando. Sem ela não fico em casa. Há três dias que pareço morar onde estou: na rua, no café, na praia.
Voce sabe que era mais guardá-la que eu suportava o peso de tudo.
O gato, aquele cinza, tem passado fome no pête de Garricha. Confiei à vizinha os dois canários e os potes de gerânios, estes nem quero ver, de vermelhos que são.
Às vezes acordo, pensando estar de sarampo. Às vezes sonho que meu corpo é uma esteira contra o fogo. (Não pense que é febre. O médico viu a radiografia, disse que estava claro).
Mas minha pele tornou-se muito sensível. Demais.
A dor cresce dentro da gente e tem que respirar. Ela tem uma energia e queima como sol - lá fora.
Nem sei se é dor ou se é aquela que está sofrendo que me visita assim. Não têm onde encontrar-me e entram dentro de mim, querem abraçar-me e avançam minhas fronteiras.
Estranho existir assim, tão sem fôlego e tão sem sede fôlego...
Quarta-feira, no serviço, dormi sobre a mesa. Fazia um calor bruto, minha língua e a esponja de selos estavam secas. - Sonhando, eu era um cachoro e os dedos de Garricha teciam meu pêlo. Era quase um esquecimento ser cachorro. Mas eu via o gato, esse rival, cuja cauda era um agulheiro e me ameaçava não sei de quê...
Foi a primeira vez que dormi na repartição. Parece que ninguém reparou.
Voce sabe, todas essas coisas preciso dizê-las. É urgente.
O que verdadeiramente tem me conduzido são as ruas. Como se fossem rios. Sinto-me agora profundamente ligado às pessoas desconhecidas, deixo conduzir-me junto com elas, arrastando em seu curso.
Ah! as grandes filas de cinema, seu lento passo para o mergulho na tela...
Não creia que seja prazer, nem querer esquecer... Creio que Garricha cessou de habitar em si. É preciso procurá-la em tudo. Um pouco em tudo.
Não sei porque esse modo de consolar das pessoas me agride tanto. Se estão quietas e alheias, me confortam muito mais.
A filha da vizinha é quase sem pudor, no jeito de me acarinhar com os olhos, de falar em Garricha, de andar pela casa. Quando ela entra, qualquer coisa estremece em mim. É verdadeiramente a morte que esta moça me anuncia, tão cheia de vida. Entra como se reclamasse um direito. Eu a detesto.
... Outro dia me ofereceu para fazer o café da manhã. Nem sei de que maneira recusei.
Domingo vou sair com Ismael. Está reparando o barco para voltar à pesca. Ele pode dar-se a um esporte. Há tempos fez vir do Paraná uma casa pré-fabricada e nos convidou para passarmos uma temporada na ilha. Foi quando Garricha começou a tossir demais.
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