O Anjo
Intangível assim
quem lhe pressente
nessa beleza, além,
asas mais leves?

Presença, serafim
que transparente
aqui pousa e sustém
as horas breves.

Mas sempre sem sinal
— o anjo se elide
em tudo — e nesse raio

que no ar seu cristal
ora reincide
a luz é só desmaio.

De tudo me afastei, por não querença
ou medo de demais querer a tudo
e de fixar em ócio e inexistência
o móbil ser ideal com que me iludo.

E de tudo herdei minha inocência,
este sentido de não ser, agudo,
vivo mistério e tão mortal ciência
que me aprendeu a ouvir o verso mudo.

A vida não vivi, — hora distante
que nunca se deteve em meu caminho.
A imagem vista em ver era bastante.

Mas, se não sei nem mesmo o que devoro,
e me consome a mim, e é sozinho,
suor de aurora, poesia, eu fui teu poro.

 
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