Um Estudo*
E, sem saber,
À procura antes do silêncio do que da palavra,
de um silêncio que contém e acaba por absorver a palavra da
qual ele germinou, a poesia de Maria Ângela Alvim, a meu ver, realiza-se
no revés da escrita. São letras brancas em campo escuro,
impressas em negativo naquele fundo de névoa flutuante, que às
vezes vela e desfoca o discurso, mesmo se este continua a ascender, agora
indistinto e já sem alento, nas linhas suplementares da pauta. Ora
mergulhando, ora emergindo de tal neblina do significado, projeto generoso
e ao mesmo tempo hesitação que desmaia, atende sempre a um
apelo urgente que logo vai se fragmentar em agudas estilhas de cristal
e diamante. A tatear, de olhos vendados, com inteiro desprendimento de
caminhos alheios, essa poesia vai-se criando um espaço ao perseguir
obsessivamente o sentido íntimo de si mesma - capela imperfeita
do seu interrogar.
Alexandre Eulálio
num espaço meu
- só, estranha em mim,
eu regressava.
Revés vale aqui como avesso (avesso submerso do próprio
eu, avesso do cotidiano dos outros, pesquisa indiferente à lição
comum) mas ainda enquanto derrota do escrever: roteiro percorrido ao mesmo
tempo que voz incompleta, feita em pedaços, a ensaiar uma linguagem
provisória, eco distante de ritmos, formas e metros tradicionais,
e no entanto marginal a tudo que não fosse a própria singularidade.
Isto apesar do muito que a sua expressão também deve aos
modismos de época, instrumento de trabalho que o poeta levou ao
longo da jornada, mas aos poucos trataria de amolgar à maneira dele.
O estilete assim vai grafando sem pressa na tabuinha recoberta
de cera, tentado pela maciez convidativa da superfície; a gratuidade
musical do gesto esboça modulações de uma total fluidez.
O texto, envolvido progressivamente pelo branco da página, dele
se impregna sempre mais; num crescente abstrair-se, tende para a indeterminação
semântica e até alcança a inteira ambigüidade
da escrita automática, “cata-vento / que o instante faz girar em
doido tempo”.
Porteira escancarada para o pasto livre da significação,
essa múltipla possibilidade de leitura já estava presente
nos textos compactos de Superfície (1950), caderneta de campo de
uma sensibilidade acesa, perplexa, cujo laconismo, contornando o epigrama
e o hai-kai, apresentava-se auto-suficiente a ponto de alguma vez confinar
com o enigma. Em Barca do Tempo (1950-1955), volume que a autora não
se resolvera a editar, e nos ulteriores Outros Poemas, mais ou menos contemporâneos
daqueles textos mas que praticamente não reviu, ao lado do espraiar
da expressão e da busca de algumas formas fixas - canções,
sonetilhos polimétricos, sonetos de curioso esquema rímico
(aabbaabbcdecde, abbaabbaccdeed, ababababccdeed etc.) - Maria Ângela
procura estabilizar a expressão sem no entanto abandonar aquele
feminino ricercare do fugidio e do inefável, dos momentos de passagem
aprisionados pelas franjas de uma linguagem reinventada segundo certa imagem
que de si projeta num imaginativo espelho côncavo. Penosamente perseguidas
na direção do “vertiginoso relance” que Gilda de Mello e
Souza estudou na novelística de Clarice Lispector, aqui o poeta
não consegue alcançar a desencantada epifania da ficcionista
de Legião Estrangeira, pois o contínuo fragmentar do discurso
poético em segmentos isolados afinal não permite uma articulação
abrangente desse mundo de constatações pressagas.
Curiosamente, tanto os Poemas de Agosto quanto a surpreendente
prosa poética Carta a um Cortador de Linho (que fascina pela justeza
do tom) caracterizam-se pela concatenação profunda do eixo
narrativo, o qual, sem jamais se superpor ao interesse imediato da expressão
e do contido pathos de ambos, define-os como unidades de características
próprias. Por esse motivo parecem preceder a maioria dos Outros
Poemas e serem antes contemporâneos de Barca do Tempo. Proporia para
ambos, Agosto e Carta, a data 1955-1956, sendo talvez possível que
o Cortador tenha sido redigido ainda antes disso.
O tema da escrita quebrada aparece contudo, de modo explícito
e com reveladora freqüência, através de todas as fases
da poesia de Maria Ângela. Documentando a consciência do poeta
diante dos problemas da composição, propõe, polemicamente,
tal ânsia de se exprimir. Ao estabelecer sozinha a própria
rota, a “eterna itinerante” constrói um abrigo expressivo com os
elementos díspares que topou ao longo do seu trajeto; experimentando
os materiais vários que poderiam servir ao canto que então
ensaia, não parece confiar demais em nenhum. Como “simples criatura
/ sem conjetura” o escritor debruça-se sobre o fazer poético,
considerando-o criticamente desde os primeiros vôos de Superfície
- “Branca é a palavra que guardou silêncio”, “O cristal se
partiu”, “Tua voz é música”, “Sou o fruto das raízes”
- até o balanço definitivo de “Íris”, em Outros Poemas
- “essa arte da carência, a mais exata / inteira te perfez, e a forma
atreves / síntese pura, branca matinata / das cores outonais, depois
das neves”. Embora a “fome de paladar sempre absoluto” que é a sua
espere sempre ouvir o remoto silêncio “ensurdecido” diante do encontro
definitivo com a voz que busca, ela não há de conseguir jamais
assumir com plenitude essa linguagem pacificadora.
Em Barca do Tempo e Outros Poemas pressente “clarões
de aurora em tua fala” (“és Cassandra na véspera futura”),
aconselhando ao amigo que “Cante em sua voz o rito e os dissabores / do
tempo e acontecer mas abstraindo / aspecto transitório e fáceis
cores”. A si mesma adverte: “Compondo em forma esquiva e tessitura [...]
marca teu passo em métrica de espanto”. Apesar do “verso raso”,
do “verso mudo”, do “verso suspenso”, do “verso vindo” dificultosamente,
de que se lamenta, acredita que “O verso é destino”, embora reconhecendo-o
“apenas retina / de ser e pensar”. Anota ainda: “Escreve, ó imensa
fadiga, / tua querença se expande / nessa vontade inimiga. / Escreve
teu verso raso”, ciente de que “A nota pobre / sobe num alento [...] Sob
essas cores / formas ilhadas. / Mansa criação, resignada”.
Embora conclame, num raro momento de veemência “Poesia! transcende
da letra mortal! [...] Desfere teu hino / mais longe que a prece”, está
consciente de que “Para um tempo de olhar / a cor é breve”, e que
para o poeta, silentemente, “ O olhar se aquieta em cisternas”.
Consciente da provisoriedade da arte poética que praticou
enquanto artifício do verso e agilidade de expressão, assim
mesmo Maria Ângela empreende corajosamente a sua jornada ao fundo
da expressão escrita. É bem verdade que, segundo a visão
literária tradicional, expressão e forma encontram repouso
definitivo em poemas elegíacos como “Já viajas na morte”,
“Inteira me deixo aqui”, “És morta e morta surges, transmudada”,
“Para receber tua ausência”, “Carta a Maria Cléa”; em canções
como “Inútil”, “Via Appia Antica”, “Verão”, “Infância”,
“Pântano, o verde onde” (textos que estão a pedir com urgência
uma partitura musical para ensaiarem nova vida); ou ainda “Tu, pantera,
escura noite”, “Vitória de Samotrácia”, “Tempos Passados”,
“Buscas, o quê?”. Mas a cifrada musicalidade íntima daquilo
que tem a dizer inúmeras vezes colide não apenas com o pensamento
discursivo de que às vezes a autora esboça uma paráfrase
que se deseja lírica, mas também com o mesmo verso, dicção,
metro: sempre em luta com o meio abordado, só nesse áspero
corpo-a-corpo conseguirá fazer-se significar.
A “vertigem de ser e de estar”; o “despudor das coisas divisíveis”;
o jogo de perdas do cotidiano; a inapreensível vitória sobre
o transitório; a reintegração obscura do ser no absoluto;
o conflito entre temporalidade e espaço, que atravessa o tempo sazonal
e as fases do dia, refração do grande tempo cósmico;
a viagem na morte; o irresistível transmutar das formas - constituem
a temática lancinante e obsessiva desse poeta que contempla, sentindo-os
imemorialmente próximos e remotos, a luz matutina, a germinação
no charco, o céu cobalto, águas paradas, pedra, vibrar de
asa, o instante se desfolhando, o olhar, a vidraça.
Ao assediar com paixão contida a linguagem poética,
que tantas vezes resistiu às investidas de tal criador sui generis,
a navegante de Barca do Tempo, unindo a sua voz ao fragor da tempestade,
e amarrada, como Ulisses, à vela da embarcação trôpega
que a levava, mar afora, ao sabor dos elementos, pôde ela dizer suavemente,
com inteiro abandono:
suor de aurora, poesia, eu fui teu poro
Calando-se, ao se acreditar integrada no próprio ser da
poesia, instrumento mínimo da grande respiração universal,
Maria Ângela Alvim fundia palavra e silêncio num mesmo movimento
generoso análogo ao que secretamente cumpriu na sua circunstância
humana.
Mar Casado do Guarujá
(Capitania de São Vicente)
outubro de 1980.
* Esse estudo foi retirado do livro de Maria Ângela Alvim “Poemas
– seguido de Carta a um Cortador de Linho”, editado recentemente (1993)
pela Editora da Unicamp. A edição faz parte da Coleção
Matéria de Poesia.