NOTÍCIAS LITERÁRIAS*
 

                         O livro de Maria Ângela Alvim e dos que à primeira vista passam despercebidos. Escolhendo um discreto título, que não promete ao leitor nenhuma viagem através do mistério das coisas, a autora maneja invariavelmente o poema curto, e a maior de suas composições não vai além de oito versos. Nenhum, desses poemas tem título próprio, como se não aspirassem a existência autônoma. E, mais do que essa circunstância formal, nenhum deles fere particularmente a atenção por qualquer  forma de originalidade visível, seja quanto à estrutura, que tantos poetas  novos se comprazem em manter ainda audaciosa ou desarvorada, seja  quanto à natureza dos temas ou da concepção, “Superfície” (Edições João Calanzans, Belo Horizonte, 1950) é bem o livro de quem se preocupa menos em situar-se no convívio literário e conquistar o interesse do público, do que  em  exprimir, por meio de notações límpidas, ao mesmo tempo fugitivas e exatas, a complexidade de certos estados de alma e de certas experiências vitais, decantadas do que podem conter do reflexo ou sugestão alheia. Assim, a originalidade desta poesia não está nem na forma nem nas idéias, mas no empenho da autora em manter-se fiel a si mesma, só traduzindo aquilo que seu espírito amadureceu profundamente e depurou dos resíduos emocionais ou intelectuais deixados pela vida de relação. Está no cuidado minucioso, embora não aparente, e talvez mesmo instintivo, de submeter a corrente emocional a um tratamento severo, que elimine sua causa imediata, o pretexto que a produziu, para só reter a essência verdadeiramente poética, que irá animar a tentativa de obra de arte.

                          A flor do mistério nasceu.
                          O cego sentiu o sorriso.
                          A flor do mistério é branca.
                          Branca é a palavra que guardou o silêncio.

                          Tudo aí está indicado ou sugerido, porém nada foi descrito ou contado. Sente-se perfeitamente o que Maria Ângela Alvim escondeu por trás de seu breve e tocante poema. Ela não reproduz a cena: vive-a e converte-a numa meditação concentrada, pura, que a elipse desses versos nos comunica melhor do que uma longa divagação moral e estética.
                          Meditação é, de resto, a atividade espiritual que mais parece conter as poesias da jovem autora. Seus versos às vezes assumem forma conceitual, sem que, entretanto, pretendam fixar mais do que estados de sensibilidade. No poema citado, os dois últimos versos funcionam como conclusão intelectual de uma observação haurida no mundo exterior. Na realidade, o poema propriamente dito, assim como gosta de realiza-lo Maria Ângela Alvim, seria ainda menor, de três versos apenas, porque o seu segundo verso é por assim dizer o “pretexto”, o fato que deu origem ao nascimento da atmosfera de sortilégio e poesia, levando à conclusão inefável.
                          Branca é a palavra que guardou silêncio.
                          A índole reflexiva manifesta-se em poemas que, a nosso ver, são dos melhores do volume, como este em que a repetição do primeiro verso, que é o mais forte, não afeta a estabilidade do conjunto, antes lhe dá maior consistência, e  gravidade  maior ao enunciado:
                       
                         Mais fiel que a sombra é a morte.
                          Aquela que não queres ser vem e se perde.
                          E tu gritas: - Vida!
                          Mais fiel que a sombra é a morte.
 
                          De expressão mais romântica, e portanto menos pura, êste outro poema reabilita-se, entretanto, pelo lacônico, intenso e memorável verso-conceito que o arremata:

                          Rosas floresceram em meus cabelos.
                          Negras rosas do Egito.
                          Meu corpo espera há séculos
                          É a alma o presencia.
                          Só a morte compreende.

                          A concisão vocabular de autora leva-a a produzir trabalhos que quase se assimilam à formulação do hai-kai (e não seria difícil a Maria Ângela Alvim comprimir um pouco mais seus poemas tão escritos, para adaptá-los rigorosamente a esse padrão métrico, embora a experiência carecesse de  interesse real). Mas o hai-kai se caracteriza menos pelo número de sílabas pela intenção alusiva, como observa Matsuo, e ainda aqui pode ser anotada a  aproximação entre os modos habituais de expressão utilizados em “Superfície”  e a  forma esquiva e sugestiona do velho poema japonês. A natureza da sensibilidade é, contudo, inteiramente diversa na poetisa mineira, que  foge ao tom epigramático da hai-kai clássico, e se manifesta antes pela via meditativa e conceitual que já anotamos.
                          Evidentemente, os poemas deste livro não atingiram ainda a um nível apurado de realização que inscreva Maria Ângela Alvim na constelação das  grandes poetisas brasileiras. Uma consciência maior da forma precisará orientar os passos da autora no caminho da intensa familiaridade da poesia como arte da  palavra. Os recursos de que dispõe são limitados, mas  já a intuição sabe aproveitá-los admiravelmente, através do poema curto, que, impedindo o transbordamento, oculta melhor as debilidades. De qualquer modo, este livro acusa uma presença nova e marcante entre os poetas que surgem, e a qualidade especial de uma natureza poética extremamente fina, que sabe selecionar os aspectos da realidade interior e nos oferecer, com sóbria dicção, o resultado último de sua experiência lírica. Prevemo-lhe um belo futuro. - Y.

Carlos Drummond de Andrade. Publicado no “Minas Gerais”, edição do dia 8 de abril de 1951.
 

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