Barcelona, 25 de janeiro de 1998.

O SENTIDO DO SILÊNCIO
 
                   Poucos meses após o aparecimento de “Superfície” em Belo Horizonte, o jornal “Minas Gerais”, órgão do governo do estado, publica, em sua edição do dia 8 de abril de 1951, artigo de Drummond sobre o livro. O artigo leva como assinatura a letra Y.
                   A primeira apreensão substantiva que nele figura apresenta os poemas de “Superfície” como “notações límpidas, ao mesmo tempo fugitivas e exatas... de certas experiências vitais”. Drummond assinala o domínio da meditação, da reflexão sobre a emotividade, raiz desse processo; a natureza “ decantada” , a salvo “do reflexo ou sugestão alheia” dos poemas, depurados ademais da “causa imediata”, circunstancial, que está  em sua origem - o que  os torna produtos acabados, amadurecidos no “empenho da autora em manter-se fiel a si mesma” .
                   Percepções que me levam a pensar no significado da experiência na criação de Ângela. A natureza especular, tão própria da experiência humana quando transfigurada em poesia ( a de um, de todos) está em minha irmã como que eclipsada, mas não excluída; como se mantivesse por detrás de um espelho cego. Não estaria aí a razão por que a experiência em Ângela assume-se enquanto poesia, num corpo a um tempo de carne e abstração (intocabilidade, invisibilidade)?
                   No plano da linguagem, Drummond aponta as limitações da jovem poeta e indica a necessidade que ela tem de conquistar uma “maior consciência da forma”, que possa orientá-la “no caminho da intensa familiaridade da poesia como arte da palavra”
                  Alexandre Eulalio escrevendo depois, com o conhecimento da obra posterior de Ângela, retoma o fio da conversa e avança ao mostrar que tamanho desprendimento da vida de relação, já assinalado por Drummond no artigo, impele a criação de Ângela para o espaço de si mesma: “A tatear, de olhos vendados, com inteiro desprendimento de caminhos alheios, essa poesia vai-se criando um espaço ao perseguir obsessivamente o sentido íntimo de si mesma”, espaço que traz em si “a procura antes do silêncio do que a palavra, de um silêncio que contém e acaba por observar a palavra da qual ele germinou”.
                   No que diz respeito ao amadurecimento formal, sem desconsiderar a progressão deste, mostra, com acuidade, em decorrência do sentido do silêncio como força geradora que aprendera na obra de Ângela - o que havia de irredutível, inconquistável, de intransponível, na poesia enquanto linguagem para Ângela. A dimensão de derrota do fazer que a poesia de Ângela incorpora (e em que se projeta a vontade de silêncio - pulsão da morte.)
                   (Qual o sentido da morte para Ângela? Será o lugar da experiência verdadeira; de onde a vida é sonhada? Só a morte compreende, Tão bem nascida fui para morrer. A dedicatória a Celma, que abre “Barca do Tempo”: Já viajas na morte, - nadam / aí tuas flores, passageira, / - E só perfumes te engrinaldam / a cabeceira. // Noutra margem onde se foram / as cores que emigram na enseada / sonhos de vida acalentada / hoje redouram. Será que Ângela identifica a poesia, o instrumento mínimo da respiração universal, de que fala Alexandre Eulalio, com a morte - à qual só o silêncio dá acesso? Talvez para Ângela a morte, no sentido habitual da desconsolada e desesperada extinção do ser, se dê em vida: Mortos são os que morrem em meio).

Francisco Alvim
                         Comentário ao artigo de Drummond e ao estudo de Alexandre Eulalio:


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