| Amiga:
Era manhã cedo quando perguntei por ti; uma voz desconhecida respondeu
que pela madrugada, silenciosamente, te haviam levado.
Assim se perfazem as coisas, na noite; uma viagem ao redor de outra viagem,
um silêncio no coração de outro silêncio.
As viagens anteriores que fizeste eram esboços num papel tímido,
onde as linhas hesitam em fixar-se. Com os estudantes, em Paris; com Santa
Teresa em Avila; com os trabalhadores, no interior do Brasil; e no subterrâneo
do verso: experimentavas teu caminho, sem presentir que o levavas contigo,
como se leva um colar.
Certa vez me fizeste subir a uma colina; no alto, um homem falava desta
vida em termos de outra vida; escutei-o sem convicção, toda
minha escuta se concentrava em ti, no teu desejo de distribuir a paz, e
que por um instante a criava.
Em um escaninho do mundo encontraste uma das amorosas de Rilke, e dele
me trouxeste um eco da existência do poeta; era ainda teu espírito
de comunhão, resolvendo contradições de tempo e espaço.
De
outra vez me deste simplesmente uma pequenina planta, que a terra faria
crescer. Não cresceu. Há plantas destinadas a não
florescer, encerrando uma promessa contínua, que se transmite no
nada.
As
palavras que juntaste com ritmo próprio traziam esta
indicação: “Superfície”. Discrição de
raiz, despistamento angélico.
Vinham de uma camada em que tudo é essencial e não necessita
de palavras.
Foste
mais além. Perdida em ti mesma, começaste a vagar numa região
a que não sabemos chegar ainda, a que não corresponde expressão.
Habitavas a ausência, pais de espelhos que não refletem os
rostos, nem mesmo os mais belos, como o teu. Ganharas a invisibilidade,
dentro da aparência física. E só restava decifrar tua
fala antiga:
Inútil, inútil, inútil
_ quem lê no ar brusco?
Capricho, a flor é fútil
Num vaso etrusco.
Inútil, inútil, inútil
Voltejo no asco.
Argila, és inconsutil
pouso de um frasco!
Nesse bojo profundo
há noites germinadas
_ rosas do mundo
É desse bojo profundo que ora te vejo e te reintegro na corrente
da vida. A distância infinita que esta espécie de viagem desenrola
subitamente entre os seres cria uma perspectiva nova. E restaura o movimento.
Agora nunca mais estarás fora do mundo, ou nele oculta. Agora sei
que teu nome era Busca e Passagem; há criaturas nascidas para buscar
e passar, encerrando uma promessa contínua, rosa aberta no nada.
C.D.A.
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