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Os bastidores da poesia

Texto de Natália Faria

No mundo das Relações Internacionais, em que, não raro, tensões, formalidades e burocracias prevalecem sobre a humanização das políticas diplomáticas é importante lembrar às pessoas do verdadeiro propósito destes encontros. Por isso, para a Simuna deste ano, preparamos duas intervenções artísticas para as cerimônias de abertura e encerramento, a fim de reforçar a essência humanitária do evento. Clara Bevilaqua e Renata Sanchez, ambas graduandas em Teatro pela UFU, entraram neste desafio a convite da organização da VII Simuna e nos contam como desenvolveram as propostas de intervenção.

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Estátuas militares tomam vida para presentear o público com flores e versos.

Naça – Para a abertura da Simuna, nós propusemos a vocês um texto, “Estatuto do Homem”, de Thiago de Mello, que dialoga com as ideias de justiça e liberdade; a proposta da estátua viva, que seria a figura de um soldado militar, em razão dos 50 anos do golpe da ditadura militar no Brasil – completados na semana da Simuna e, finalmente, a questão da luta pelos direitos da mulher, levando em conta  a grande repercussão de uma recente pesquisa do Ipea que apontou um preocupante quadro de cultura machista no país. Então, pedimos que vocês criassem, a partir dessa proposta, uma intervenção simbólica que transmitisse tudo isso. Como se deu o processo de criação?

Clara – “No processo de criação buscamos pensar o que seria, depois de 50 anos, essa presença militar. Eu tenho medo de militar. Eu tenho medo de polícia. Quando eu chego perto, eu me abaixo, eu me curvo, por todo um resquício de algo que eu até não vivi. Mas o que é essa memória que fica de 22 anos de ditadura e depois de 50 anos do golpe militar, o que fica no meu corpo? E o que tem por trás desses militares também? Como se daria a humanização dessa ditadura civil militar? Então o que pensamos foi a questão do toque. No início (do evento), quando nós ficamos paradas com uma plaquinha, pedindo uma foto pelo abraço da pessoa, a intenção foi gerar o contato, o toque com essa figura militar.”

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Em um ato simbólico, as atrizes se despiram da roupa de militar e fizeram um protesto contra os abusos à mulher.

Renata – “Exatamente. Como que eu, ao receber uma coisa, dou o meu melhor, que pode ser o abraço? E gera inclusive uma confusão: ‘É a foto do abraço ou o abraço pela foto?’. Pensamos no toque, novamente, pela entrega de rosas brancas ao público. Nós tínhamos também outros materiais que nos foram propostos. Muito forte o texto, as imagens que o texto traz. E as estátuas vivas, duas mulheres de militar, que aos poucos vão se revelando, tirando as peças de roupa a cada artigo declamado, nessa relação com os movimentos na mídia digital também, acerca das mulheres. Então, a ideia do todo foi um decreto ao amor, às relações afetivas, tão importantes para essa almejada paz do mundo.”

Naça – No encerramento, deixamos vocês livres para criarem e o público foi surpreendido novamente com a entrada de duas artistas, vestidas de clowns, distribuindo sementes à plateia e declamando um texto de autoria de vocês mesmas, sobre o salgueiro-chorão. Como vocês pensaram essa construção?

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Renata Sanchez em cena.

Clara -“A gente queria estabelecer uma ligação com a abertura, continuando a pensar sobre o amor, e chegamos à flor, à natureza.. Queríamos dizer que para crescer é preciso, amor, cuidado e paciência.. e que as coisas levam tempo para acontecer. Além disso, fazer o paralelo do humano com a árvore, para transmitir ao público que para ser livre precisa criar raízes e cultivar, cultivar, cultivar.”