Notícias - O programa “Tem Jeito Sim” em defesa dos direitos a uma infância plena e feliz.

IMG_2235Este artigo foi publicado na revista eletrônica Research Result, da Russia. A autora faz parte da equipe pedagógica do Colégio Nacional e foi parte atuante na construção do projeto pedagógico “Tem Jeito Sim”, a espinha dorsal do método de aprendizado do Naça.

A Lei de Diretrizes e Bases Nacionais e a Base Nacional Curricular para a Educação Infantil, que regulamentam as diretrizes educacionais brasileiras, apontam a necessidade de rompimento com práticas assistencialistas que marcaram a história das crianças brasileiras por muito tempo e definem a criança como um sujeito histórico e de direitos, que brinca, imagina, fantasia, deseja, aprende, observa, experimenta, narra, questiona e constrói sentidos sobre a natureza e sobre a sociedade, produzindo cultura.

Essas diretrizes mobilizaram os pesquisadores do Colégio Nacional a buscarem referenciais teóricos que consolidassem essa premissa e os auxiliassem na reforma do pensamento dos educadores. Os pesquisadores encontraram na Pedagogia da Escuta e nas práticas educativas da cidade de Reggio Emília, na Região Regiana da Itália, essa inspiração.

As Cem Linguagens das crianças passaram a ser os indicadores das práticas pedagógicas dos educadores que a partir das pré-figurações ou ideias das crianças, passam a elaborar projetações dos espaços de interação e relação, documentando os fazeres por meio de vídeos, imagens, desenhos ou textos.

As crianças passaram a compor uma comunidade aprendente que juntamente com seus pares, seus professores e funcionários da escola, participam da elaboração do conhecimento e das vivências do cotidiano familiar e escolar.

O professor passa a ser um provocador de situações de aprendizagem por meio de uma escuta atenta e inspirada no estímulo ao diálogo, à relação e à participação. A intervenção do educador é significativa na construção de sentido ajudando as crianças a propor uma ideia, moldá-la em hipótese e a testá-la como válida. Sua função passa a ser a de um problematizador das questões e não um facilitador de questões. Através de suas escutas atentas, documentam os processos, discutem situações, preparam imagens e contextos, relançam situações relevantes, analisam as atitudes e participam dos contextos de produção.

IMG_0205O currículo desenvolvido pela Educação Infantil rompe as amarras e passa a retratar o cotidiano através da criação de sentido, pelas crianças, sobre o que ocorre ao seu redor. Não se configura em ações pré-determinadas, sujeitas a reprodução sem análise ou reflexão.

As projetações criadas pelos educadores configuram-se em planejamentos flexíveis com hipóteses iniciais sobre grupos de crianças e sujeitos a mudanças e modificações durante o percurso. Muito diferente das programações que se configuram em planejamentos baseados em currículos pré-determinados, programas oficias ou estágios de desenvolvimento global e impessoal.

Não existe necessidade de apresentação de conceitos prontos e acabados para uma criança que ainda não conhece suas possibilidades e necessita descobrir o inusitado. É um conhecimento construído de dentro para fora, tecido a partir das conexões neurais que associam, discriminam, potencializam e descobrem novas estruturas de funcionamento.

Os Campos de Experiência determinados na legislação nacional orientam essas projetações preservando as especificidades das crianças de até seis anos de idade nos eixos: a) o eu, o outro e o nós; b) o corpo, os gestos e os movimentos, c) a escuta, a fala, o pensamento e a imaginação; d) os traços, os sons, as cores e as imagens; e) os espaços, os tempos, as quantidades, as relações e as transformações. Contribuem não só para nortear a ação docente como para apontar indicadores preciosos sobre habilidades pouco exploradas ou mesmo negligenciadas pelos docentes.

A natureza, acolhida em sua grandeza, participa dos momentos de aprendizado disponibilizando fenômenos observáveis aos alunos que criam teorias a partir de suas percepções. Nada é apresentado, tudo é acolhido, nada é afirmado, tudo é questionado, nada está pronto, tudo está para ser construído.

Existe uma plasticidade cerebral que é desenvolvida a partir das relações que se estabelecem entrem as crianças, as crianças e o meio físico e social, as crianças e elas próprias, pois o conhecimento não é linear e necessita de interações emocionais e cognitivas para acontecer.

IMG_0207É o respeito aos processos de amadurecimento neural e afetivo que empregam os sentidos, as percepções e as sensações na busca por respostas e significados. Necessitam das contradições que apontam o certo e o errado, o bom e o mau, o individual e o coletivo, o confronto, o acordo, as disputas.

A individualidade e o coletivo nessa proposta educacional possibilitam o refletir sobre as diferenças e as singularidades e a necessidade de um olhar atento sobre as crenças e valores estabelecidos. Os acordos, regras, determinações e rotinas passam a ser criados em prol de um bem comum e de uma coletividade.

O espaço físico nessa proposta atua como um terceiro educador provocando os alunos a tomarem uma atitude frente aos objetos, às situações, às relações, aos contextos e servindo de inspiração e estabelecimento de conexão entre o cognitivo, o afetivo e o psicomotor. O encontro com o espaço cria o desejo e a intenção.

A estética visual compõe, com a organização dos espaços, um despertar para a sensibilidade, a beleza, o singelo e o acolhedor. A função osmótica defendida em sua estrutura garante o fluir do interno para o externo e vice versa em todos os cômodos da escola.

As dimensões do cuidar e do educar se entrelaçam nesse projeto garantindo direitos essenciais às crianças como o conviver, o brincar, o participar, o explorar, o comunicar, o conhecer-se, o alimentar-se, o descansar, e outros cem direitos que somente quem possui cem linguagens é capaz de possuir.

Não existe rotina, mas cotidiano escolar que fornece situações significativas de aprendizagem aos educadores e às crianças. Prioriza-se o real, a experiência cotidiana. As crianças sentem, tocam, experimentam, fazem, relacionam-se, exploram o que está em sua volta para conhecerem-se e ao mundo onde estão inseridas. Há uma valorização do protagonismo infantil, da autoria, do trabalho em pequenos grupos e do trabalho coletivo e cooperativo.

IMG_0221A coleta de dados, a organização e interpretação da documentação durante a experiência educacional, constituirá o processo avaliativo da Educação Infantil que incorporada à prática diária dos professores possibilitará o encontro coletivo e o proceder das investigações, análises e ponderações. Os diálogos com as crianças servirão de base para as auto avaliações, as avaliações individuais e em grupo.

Inspirada nas concepções psicogenéticas de Piaget, na concepção histórico-cultural de Vygotsky, na teoria da aprendizagem de Brunner, nas Cem Linguagens de Malaguzzi e na teoria da aprendizagem significativa de Ausubel, o Projeto “Eu” para a Educação Infantil do Colégio Nacional, busca a garantia dos direitos infantis por meio do acesso aos processos de apropriação, renovação e articulação de saberes e conhecimentos.

As crianças da Educação Infantil do Colégio Nacional são sujeitos de direitos, produtores de conhecimentos e significados, e seus processos de aprendizagem ocorrem autonomamente em uma rede de relações sociais entre crianças, educadores e familiares.

Promover o bem comum por meio da Educação, com o melhor compromisso de cuidar de si, cuidar do outro, cuidar desse lugar e de valorizar o respeito à diversidade, o desenvolvimento sustentável, o estímulo à criatividade e a busca permanente da inovação, referenciada na nossa história e no avanço da ciência e da tecnologia, passam a ser a causa e a vida dos educadores nessa instituição de ensino.

 

Cleide Cabral Alvares

Assessora Pedagógica da Modernize Desenvolvimento em Educação Ltda.

Núcleo Técnico Pedagógico do Colégio Nacional