Notícias - Intercâmbio à francesa

Yolaine (1ª da esquerda) cercada por amigas, estrangeiras e brasileiras, que fez no Brasil.

A oportunidade de viver em outro país, por si só, não faz sentido. Para que alguém deixe o aconchego de um lar estruturado e atravesse meio mundo, entre mares e continentes, é preciso um estímulo. O ganho, na maioria das vezes não é financeiro, mas empírico e pessoal. A pessoa se torna mais confiante, aprende a respeitar as diferenças e a caminhar com as próprias pernas. Yolaine Daigre seguia uma típica rotina parisiense, frequentava sua escola, saía com amigas, até que um dia, decidiu conhecer uma nova cultura, uma nova realidade.

Por meio do Rotary Club, começou a pesquisar possíveis países. “Minha mãe pensava que quando eu viesse, alguém poderia me matar”, afirmou Yolaine, referindo-se à visão do país no exterior. Há algum tempo em Uberlândia, a francesa já pensa diferente, toda a ideia de perigo ruiu, uma vez que considera que toma aqui os mesmos cuidados que tomaria em Paris. Lá fora, o Brasil é visto por muitos como um local perigoso, entretanto, quando se fala do povo brasileiro, não há cordialidade maior em todo o mundo. “As pessoas do Brasil são engraçadas, muito boas pessoas, sempre que vejo alguém nos abraçamos, estão sempre sorrindo”, disse ela. 

Uma das dificuldades de Yolaine é o português. Quando veio para o Brasil, era clara a hercúlea tarefa de se adaptar a costumes diferentes, mas não pensava que o idioma fosse uma barreira tão sólida entre ela e o conhecimento. Como todas as aulas são ministradas em português, é difícil compreender todos os tópicos. Inglês, História e Geografia são seus pontos fortes: “Algumas palavras são muito similares ao francês”, explicou. A própria dinâmica em sala de aula foi um choque. Enquanto em Paris, o ensino é mais voltado para práticas tradicionais, com professores mais distantes e severos, aqui ela encontrou mais do que educadores, encontrou amigos.  “O professor fala com você, te ouve, aprender é divertido”, afirmou.

Fazendo o caminho inverso, Emilly Gomes mal teve tempo de conhecer o Brasil. Deixou o país com a mãe aos 5 anos de idade para desbravar oportunidades na terrinha. Três anos de sotaque europeu depois, uma nova casa viria de encontro às duas. “Minha mãe decidiu mudar para Paris e eu fui”, disse ela. A priori, o idioma francês se mostrou como um obstáculo, não intransponível. A “classe para estrangeiros” foi sua primeira escola, onde aprendeu tudo do zero. Do Je ne parle pas français ao Très bien, houve muito esforço e dedicação. 

Caminhando com as próprias pernas, falando a nova língua, Emilly estava em casa. Paris era seu lar, suas amizades, sua compacta família, sua fonte de encantamento. Com aulas das 08h às 20h, durante um mês e meio, e férias no período conseguinte, viajou ao Brasil para visitar a outra metade do seu clã. “Gostei muito da minha viagem ao Brasil e decidi que era aqui que realmente queria estar”, afirmou ela. Aos 15 anos, embarcou no Charles De Gaule de mala e cuia para o interior de minas. 

Até o momento, os choques e as saudades não sobrepuseram os benefícios de sua escolha, focada basicamente na proximidade com a família e com a cultura brasileira. Adoradora da culinária nacional, sentia falta do aconchego que só um pastel, um churrasco ou uma tigela de açaí eram capazes de fornecer. Da brasilidade. “Sinto muita falta das minhas amigas”, disse Emilly, que após anos de relações distantes e frias, mergulhou de cabeça no cotidiano do Colégio Nacional e fez muitos novos amigos. “O brasileiro é muito mais aberto, quando cheguei aqui, fiz amizades no primeiro dia”, falou ela. Apesar das saudades, Emilly afirma se sentir muito feliz com a escola. “Passei a compreender melhor Física e Matemática”, finalizou.