Notícias - O fenômeno da imigração italiana no Brasil

(Foto: Arquivo/ Pesquisa Italiana)

Em 21 de fevereiro de 1874, aportou no Brasil o “La Sofia”, primeiro navio italiano com 380 famílias de imigrantes do território europeu. Grande parte de seus tripulantes vieram para a América do Sul após as transformações socioeconômicas que estavam ocorrendo no norte da Península Itálica. A crise de emprego ocorrida na segunda metade do século XIX, que ganhou força devido à industrialização do país, jogou grande parte da população na pobreza. 

O Brasil passou a ser enxergado como a terra prometida das oportunidades. Enquanto na Itália, alto crescimento populacional não conseguiu se sustentar frente à economia e geração de empregos, havia uma grande demanda de mão de obra em terras brasileiras, devido à Abolição da Escravatura, que foi assinada em 1988. A maior parte dos imigrantes italianos eram de regiões rurais em seu país de origem, o que favoreceu seu encaminhamento para as grandes fazendas de café, principalmente na região do interior de São Paulo. Os agricultores optaram pela contratação destes, em vez de integrarem os ex-escravos no mercado de trabalho.

Aqui, é importante abrir um parêntesis à respeito do contexto social que levou ao envolvimento do governo brasileiro em uma política para a obtenção de mão-de-obra imigrante. A antropóloga e historiadora Lilia Moritz Schwarcz, em sua obra “O espetáculo das raças: Cientistas, instituições e questão racial no Brasil do século XIX”, remonta a influência de teorias como o Darwinismo Social e a Eugenia sobre o imaginário social e político nacional. O povo brasileiro passou a considerar a ideia de incapacidade na condução dos rumos da nação, devido a uma suposta “inferioridade racial”, uma vez que eram descendentes de negros e índios.

(Foto: Guilherme Gaensly/Fundação Patrimônio da Energia de São Paulo/Memorial do Imigrante)

Além da questão racial – em prol de um embranquecimento da população -, também foi levado em conta a religiosa, o que também foi um ponto positivo para os italianos, já que eram, em sua maioria, tradicionalmente católicos. Mais de 3,6 milhões de imigrantes adentraram as fronteiras brasileiras entre 1880 e 1904, sendo que 57% destes vieram da Itália. A escolha por características físicas ficava ainda mais clara com a publicação do decreto nº 528, de 28 de junho de 1890, que restringia a entrada no Brasil de “indígenas da Ásia e da África”.

Notícias sobre as péssimas condições de trabalho e moradia das famílias italianas residentes no Brasil foram amplamente divulgadas pela imprensa italiana, iniciando um processo de declínio da imigração. Na década de 1920, o então Primeiro Ministro italiano Benito Musssolini promulgou decretos que dificultavam a partida de trabalhadores italianos, pois precisava deles para a reconstrução do país. Em 1930, com o excesso de mão de obra, Getúlio Vargas assinou o Decreto nº 19.482, que limitava a entrada de imigrantes “não-qualificados” no país.

O governo Vargas ainda promulgou a Lei de Cotas de Imigração por meio da Constituição de 1934, o texto versava sobre “promover o amparo da produção”, a “proteção social do trabalhador brasileiro” e proteger os “interesses econômicos do País”, limitando a entrada de imigrantes a “dois por cento sobre o número total dos respectivos nacionais fixados no Brasil durante os últimos cinquenta anos”. Entre 1945 e 1959, cerca de 106 mil imigrantes italianos ainda deixaram a Itália para morar no Brasil, mas desde então, não houve outro movimento migratório tão expressivo.

(Foto: Arquivo Histórico Municipal de Bento Gonçalves)

As colônias italianas se concentraram nas regiões sul e sudeste. De festas, santos de devoção e festas religiosas a comidas como a pizza, o panetone e o espaguete, passando pelo sotaque carregado e pela introdução de novas técnicas agrícolas, que acabaram por constituir a região vinícola da Serra Gaúcha, a influência da cultura italiana desenhou os costumes brasileiros ao longo dos últimos dois séculos e continua exercendo uma força considerável. Segundo dados da Embaixada italiana no Brasil, há cerca de 25 milhões de italianos e descendentes vivendo atualmente em solo brasileiro.